sexta-feira, 12 de março de 2010

O DDA Adulto ...

1) Trata-se de um distúrbio recente ou um modismo diagnóstico?

O Transtorno do Déficit de Atenção com ou sem Hiperatividade foi descrito pela primeira vez, em 1902, e já recebeu diversas denominações ao longo de todos esses anos. As mais conhecidas foram: Síndrome da criança Hiperativa, lesão cerebral mínima, disfunção cerebral mínima, transtorno hipercinético.

Em 1994, o termo oficialmente adotado pela Associação Americana de Psiquiatria foi o de Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade, significando a barra inclinada que o problema pode ocorrer com ou sem o componente de hiperatividade, outrora considerado o sintoma mais importante e definidor do quadro.

2) Problema raro ou comum?

Os diversos estudos realizados têm demonstrado que esse transtorno ocorre em cerca de 3 a 7% das crianças, sendo aproximadamente 3 vezes mais freqüente em meninos que em meninas. Nas meninas prevalece o tipo clínico em que predomina a desatenção, sem evidência importante da hiperatividade. Na idade adulta, foi encontrado em 4% das pessoas.

O Transtorno do Déficit de Atenção com ou sem Hiperatividade é considerado o distúrbio infantil mais comum e é tido como a principal causa de fracasso escolar.

3) Não se trata de um problema restrito à infância?

Até a poucos anos achava-se que no final da adolescência os sintomas do Transtorno do Déficit de Atenção iriam regredindo com ou sem tratamento, e que o adulto ficaria livre das características que apresentava quando criança.

Entretanto as pesquisas mais recentes provaram que o distúrbio tende a permanecer através da adolescência e continuar na idade adulta. A questão é que as características do distúrbio vão revelando aparências diferentes de acordo com as diversas faixas de idade. É fácil entender, por exemplo, que uma criança hiperativa corre de um lado para outro, está constantemente pulando, mais do que as outras crianças da mesma idade, mas o adolescente e o adulto hiperativos irão exteriorizar a mesma hiperatividade de forma diferente, mais de acordo com as suas respectivas idades.

4) Como conceituar o Transtorno do Déficit de Atenção?

O Transtorno do Déficit de Atenção com ou sem Hiperatividade é um distúrbio habitualmente de longa duração (freqüentemente se estendendo até a idade adulta, como acabamos de dizer) que se manifesta por três grupos de sintomas: desatenção, hiperatividade e impulsividade.

É evidente que esses sintomas são inespecíficos, podendo ser encontrados em uma grande variedade de outros transtornos, como também fazendo parte da vida psíquica normal, em alguns momentos.

Na verdade, a Hiperatividade não é simplesmente uma deficiência de atenção, como a denominação pode fazer pensar. Caracteriza-se também como um distúrbio do desenvolvimento adequado da inibição e da modulação das respostas, melhor dizendo, do autocontrole.

5) Se as características do Déficit de Atenção também existem nas pessoas normais, e se essas mesmas características também podem ocorrer em outros distúrbios, como identificá-lo então?

Em primeiro lugar, é necessário que os sinais de desatenção, hiperatividade e impulsividade sejam mais intensos que os apresentados pelas pessoas da mesma idade e que sejam persistentes. A pessoa deve apresentar essas características constantemente, como um padrão de comportamento delas. Quem convive com essas pessoas costumam dizer que elas sempre foram assim.

Em segundo lugar, é necessário para se falar em Déficit de Atenção que esses sintomas tenham aparecido desde a infância. Quer dizer, se alguém passou a apresentar essas características depois de adolescente ou adulto, não se trata de Déficit de Atenção, mas provavelmente de algum outro transtorno.

Além disso, é necessário que esses sintomas tenham uma intensidade e constância tal que existe já um comprometimento do seu funcionamento em mais de uma área de atuação, como casa, escola, trabalho, vida social, etc.

Por último, para se fazer o diagnóstico de Déficit de Atenção exige-se que sejam excluídas outras causas capazes de ocasionar essas características.

6) Como se apresenta uma criança com Hiperatividade?

Sinais de desatenção:

a) A criança tem pouca atenção, e com freqüência comete erros em trabalhos escolares e provas por puro descuido. Examinando a prova que ela mesma fez, a criança é capaz de apontar os próprios erros e até se aborrecer por ter cometido erros tão tolos. Ou a professora se espantar com os erros cometidos em matéria que a criança comprovadamente conhece.

b) Nas aulas é comum perder a atenção no que o professor está falando, e ficar pensando em coisas bem distantes das aulas. Costuma dizer que "voa" ou "viaja" nas aulas. Essa mesma perda constante de concentração é que dificulta a leitura de um livro recomendado pela escola. Com freqüência precisa voltar a ler do início da página pois é como se tivesse dado um branco no momento em que estava lendo um trecho.

c) Tem grande dificuldade de fazer os deveres de casa sozinha, porque se distrai a todo instante, interrompe, leva muito tempo, fazendo desses momentos verdadeiras batalhas entre mãe e filho.

d) Outras vezes quando está fazendo algo que é do seu interesse, como ver TV, jogar videogame, etc., é capaz de ficar tão concentrada que parece não escutar se é chamada. Isso quer dizer que a criança com Transtorno do Déficit de Atenção com ou semHiperatividade é capaz de ficar hiper-concentrada (se estiver interessada) ou então ficar desconcentrada (quando não tiver tanto interesse).

e) É facilmente distraída daquilo que está fazendo. Por exemplo, basta que alguém chame seu nome ou que ocorra um ruído diferente para se perca quase completamente da tarefa que estavam realizando, em especial se era uma leitura ou aula.

f) É em geral muito desorganizada com seus pertences e na maneira com tenta fazer as coisas. Por isso está freqüentemente perdendo objetos, como lápis, livros, etc.

g) Algumas crianças com Transtorno do Déficit de Atenção com ou semHiperatividade têm grande dificuldade em dar a partida para realizar qualquer coisa, parecem lentas, sem energia. Já outras começam as coisas rapidamente, mas também logo abandonam o que começaram para fazer uma segunda atividade, que por sua vez dificilmente será completada.

h) Quando se pede a uma criança com Transtorno do Déficit de Atenção com ou semHiperatividade que efetue 2 ou 3 tarefas ao mesmo tempo, ou que transmita um recado, com maior freqüência haverá esquecimento das tarefas solicitadas.

Sinais de hiperatividade e impulsividade:

a) É muito ativa, inquieta, tem dificuldade de ficar sentada na sala de aula, ou numa missa. Quando é forçada a ficar sentada, fica se revirando na cadeira o tempo todo.

b) Fala muito, é barulhenta, a ponto de perturbar a classe e ser freqüentemente advertida pelas professoras.

c) Não consegue esperar sua vez, seja em jogos, filas, etc. Fala quando não deve, interrompe as pessoas, responde sem ouvir a pergunta por inteiro. Muitas vezes revela falta de tato, dizendo coisas inadequadas, que saem de supetão.

d) Algumas têm pouca noção de perigo, por isso sobem em locais perigosos, se machucam com freqüência.

e) Costumam ser estabanadas, derrubando os objetos por onde passam.

f) Tem baixa tolerância à frustração. Insistentes, não suportam uma resposta negativa.

7) Como se apresenta um adolescente com Déficit de Atenção ?

As características do adolescente com Déficit de Atenção são semelhantes às das crianças com o mesmo problema, apenas com diferenças decorrentes do próprio amadurecimento, da faixa de vida. Vejamos apenas algumas particularidades:

a) Tem dificuldade de ficar concentrado nas aulas, em leituras, em especial se não for do seu interesse. Certamente que qualquer pessoa se não tiver interesse vai ter maior dificuldade de atenção, só que na pessoa com Hiperatividade isso é bem mais acentuado.

b) Tem dificuldade em completar tarefas. Alguns desses adolescentes iniciam várias atividades, mas completam poucas.

c) Habitualmente é desorganizado, esquece compromissos, trabalhos, ou então não sabe onde guardou chaves, óculos, livros, etc.

d) Costuma fazer várias coisas ao mesmo tempo, mas dificilmente completa alguma.

e) É impaciente e inquieto, mas não tanto hiperativo como quando era criança.

f) Dirige motos ou carros de forma perigosa, expondo-se freqüentemente a acidentes.

g) Faz uso de álcool ou drogas. Em geral os adolescentes com Déficit de Atenção procuram as drogas porque se sentem passageiramente melhor sob o efeito delas, ou seja, a droga é uma forma de automedicação, embora inadequada.

8) E um adulto com Hiperatividade que outras particularidades apresenta?

Os traços são semelhantes aos da criança e do adolescente, com as modificações próprias da idade. Vejamos apenas algumas particularidades:

a) É desatento, desconcentrado, e facilmente distraído. Alguns desses adultos jamais conseguiram ler um livro inteiro. Outros até conseguem, mas só quando o assunto é de muito interesse.

b) É pouco persistente no que faz, tendo dificuldade em completar suas tarefas.

c) Seu estilo de vida é desorganizado, esquece de pagar contas em dia, sua mesa de trabalho é caótica, esquece compromissos. Sente-se confuso quando tem muitas coisas a fazer, não conseguindo estabelecer prioridades.

d) Atrasa-se com muita freqüência.

e) É inquieto, tem dificuldade em parar, e às vezes quando está em férias procura mais coisas para fazer.

f) Fala muito, monopoliza as conversas. Nem sempre é bom ouvinte.

g) Impaciente, toma decisões precipitadas, e muitas vezes se arrepende logo em seguida. Impulsivo também para dirigir. Muda freqüentemente de trabalho, relacionamentos ou residência.

h) É muito emotivo, tem freqüentes oscilações do humor, e se irrita com facilidade.

i) No trabalho tem um rendimento abaixo do que seria capaz.

9) O diagnóstico, como é feito?

O diagnóstico desse transtorno é clínico. Faz-se necessário colher uma história detalhada com uma ou mais pessoas significativas. No caso de crianças e adolescentes, as informações de pais e professores são inestimáveis. Em adultos, parentes próximos e cônjuges ajudam muito. As agendas de anotações escolares devem ser vistas, sempre que possível.

Uma história familiar deve apontar a existência de casos similares nos parentes próximos, muitas vezes em um dos pais.

Escalas de avaliação, com pontuação para os sintomas, são freqüentemente úteis para dirigir a investigação diagnóstica.

10) O que causa o Transtorno do Déficit de Atenção, ou seja, qual sua etiologia?

O fator hereditário é o mais importante. Múltiplos genes estariam envolvidos, o que justificaria a heterogeneidade do quadro clinico.

O córtex pré-frontal direito é ligeiramente menor nas pessoas afetadas. Do ponto de vista bioquímico, a hipótese predominante é de uma diminuição funcional da dopamina, e também da noradrenalina, nessas áreas.

11) Uma questão prática muito importante é que com muita freqüência ao Transtorno de Hiperatividade se associam outros transtornos (a isso se denomina comorbidade).

Uma característica marcante do Transtorno do Déficit de Atenção é sua alta taxa de comorbidade. Em crianças, calcula-se que mais da metade dos casos ocorrem acompanhados de outros transtornos. Em adultos, estima-se que esse índice seja ainda maior.

Na infância, as condições comórbidas mais comuns são: transtornos específicos do aprendizado, transtornos do comportamento, transtornos ansiosos, transtornos depressivos, e tiques.

Em adolescentes, além desses transtornos citados, surge o abuso de drogas.

Em adultos são também comuns os transtornos ansiosos, os transtornos depressivos, o abuso de drogas (incluindo o álcool e tranqüilizantes), transtornos do apetite e do sono.

http://www.mentalhelp.com/hiperatividade.htm